O Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Alagoas (Sintufal) manifesta seu desacordo e seu repúdio com o editorial publicado pelo jornal O Globo, neste sábado, que classifica como “erro” o fim da chamada lista tríplice para a escolha de reitores das universidades federais. A abordagem do editorial se apoia em premissas frágeis, comparações inadequadas e conclusões desproporcionais que pouco contribuem para um debate sério sobre a governança das universidades públicas brasileiras.
Em primeiro lugar, é equivocado afirmar que a manutenção da lista tríplice seria condição indispensável para a preservação da autonomia universitária. A autonomia prevista no artigo 207 da Constituição Federal diz respeito à liberdade didático-científica, administrativa e de gestão patrimonial das instituições. Ela não significa soberania institucional absoluta nem elimina a necessidade de mecanismos democráticos de participação da comunidade acadêmica na definição de seus dirigentes.
Na prática, a lista tríplice historicamente vinha servindo como instrumento que permitia ao Poder Executivo ignorar a vontade expressa pela comunidade universitária nas consultas internas, abrindo espaço para nomeações que não correspondiam ao candidato mais votado. Esse mecanismo, portanto, não fortalecia necessariamente a autonomia universitária, podendo inclusive fragilizá-la ao permitir interferências políticas externas no resultado das consultas democráticas realizadas nas instituições.
O editorial também recorre a comparações internacionais sobre gastos com pessoal e níveis de investimento em pesquisa para sustentar sua tese. Trata-se de uma associação artificial e metodologicamente frágil. O modelo de escolha de dirigentes universitários não possui relação direta com os níveis de financiamento da ciência ou com a estrutura orçamentária das universidades. Misturar essas dimensões distintas apenas cria uma narrativa alarmista sem base analítica consistente.
Igualmente descabida é a tentativa de comparar o sistema de lista tríplice universitária com mecanismos utilizados em outras instituições, como a Igreja Católica ou determinados processos de indicação no Judiciário. Tais analogias ignoram as especificidades históricas, jurídicas e institucionais de cada modelo de governança e acabam obscurecendo o debate, em vez de esclarecê-lo.
As universidades públicas brasileiras são instituições formadas por docentes, técnicos-administrativos e estudantes que participam ativamente de sua vida institucional. É razoável, portanto, que a escolha de seus dirigentes respeite de forma efetiva a vontade expressa por essa comunidade acadêmica.
O Sintufal reafirma que o fortalecimento da universidade pública passa pelo respeito à democracia interna, pela valorização de seus trabalhadores e pelo financiamento adequado da ciência e da educação superior e não pela manutenção de mecanismos que permitiam distorcer a escolha feita pela própria comunidade universitária.
O debate sobre os modelos de governança das universidades é legítimo e necessário. Contudo, ele deve ser conduzido com argumentos consistentes e comparações pertinentes, e não por meio de analogias forçadas ou diagnósticos alarmistas que pouco dialogam com a realidade das instituições federais de ensino superior.